quarta-feira, 7 de julho de 2010

60 itens sobre os anos 60

Quando escuto as pessoas conversarem sobre vidas passadas, eu logo imagino que se isso de fato existe, pelo menos uma dessas vidas eu vivi intensamente nos anos 60. Sempre me identifiquei com as ideias, ideais e principalmente com a efervescência cultural.

É uma afinidade muito natural, sempre acontece de forma espontânea. Às vezes me pego vendo um filme ou ouvindo uma canção que nem foi produzida naquela época, mas guarda alguma referência ou tem aquele clima tão peculiar, como é o caso do "The Last Shadow Puppets", projeto alternativo de Alex Turner, vocalista do Arctic Monkeys, que me pegou logo na primeira audição, quer dizer, logo que vi o maravilhoso clipe de "Standing Next to Me", totalmente inspirado nos programas de TV dos anos 60, que exibiam as bandas da época no que seriam os videoclipes de hoje. Impossível não lembrar dos Beatles em "A Hard Day's Night", com aqueles terninhos e calças de cano curto além daquelas botas com bico fino. Adicione aquelas garotas vestindo tubinhos e fazendo aquela dança mexendo com os braços, as câmeras gigantes, jogo de luzes como um eficiente recurso, tudo tão... tão 60's . Pois é,

Todo moderno:
Tem pelo menos um clássico por trás:
Mas além dessa citação "so Beatles", há uma regravação (lado B do single "My Mistakes Were Made for You") de uma dupla de muito sucesso naquela dédaca, Nancy Sinatra e Lee Hazzlewood, "Paris Summer". Quando ouvi, achei que era algo original, mas inspirado na dupla, como estava ouvindo bastante a Nancy na época em que descobri a banda (será coincidência?) acabei por descobrir que a dupla havia gravado aquela canção e o The Last... havia feito um competente cover. Só citando duas das inúmeras referências.
Sem dúvida os anos 60 abriram definitivamente um admiravel mundo novo de sons, cores, imagens e ideias que ainda reverberam na mais diversas formas possíveis. Com esse post, dou início a uma nova proposta para o Farol e espero compartilhar nesses 60 "itens" que virão, um pouco da minha paixão por essa tão amada e recorrente década. Aproveitando que há alguns dias atrás terminei de ver todas as temporadas da série "I dream of Jeannie" que ficou conhecida por aqui como "Jeannie é um gênio", iniciarei os posts dessa nova proposta com a Jeannie, o Major Nelson e toda a turminha.

A trilha sonora para composição desse post:
  • Nancy & Lee (1968)
  • Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim (1967)
  • Dusty in Memphis [Especial Edition] (1969)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Confabulando o fabular, Vol.5


Jean de La Fontaine (1621-1695) tinha formação em Direito e Teologia, mas sua verdadeira paixão sempre foi a literatura. Apesar de ser mais conhecido como fabulista, também escreveu versos e publicou um romance: Os Amores de Psique e Cupido. Mesmo sem conhecer esse romance, o título me remeteu ao belo mito de Psique e Cupido, que pode ser lido no link do ótimo site Olimpo e Tróia que está na imagem abaixo:

Apesar de não trazer temas novos, suas fábulas requintavam com típica ironia e humor (recorrentes nas letras francesas de seu tempo) as fábulas atribuídas a Esopo e mais tarde lapidadas por Fedro, ambos já comentados por aqui. La Fontaine fazia parte da fabulosa corte do rei Luis XIV. Foi contemporâneo de Molière, Racine e Boileau, com quem formou o "Quarteto da Rue du Vieux Colombier". (Que nome pomposo!)Em sua primeira coletânea de fábulas escreveu no prefácio:

"Sirvo-me de animais para instruir os homens."

Faleceu aos 73 anos, sendo considerado o "pai" da fábula moderna.

A Raposa e a Cegonha

A Raposa convidou a Cegonha para jantar e lhe serviu sopa em um prato raso.
-Você não está gostando de minha sopa? - Perguntou, enquanto a cegonha bicava o líquido sem sucesso.
- Como posso gostar? - A Cegonha respondeu. vendo a Raposa lamber a sopa que lhe pareceu deliciosa. Dias depois foi a vez da cegonha convidar a Raposa para comer na beira da Lagoa, serviu então a sopa num jarro largo embaixo e estreito em cima.
- Hummmm, deliciosa! - Exclamou a Cegonha, enfiando o comprido bico pelo gargalo - Você não acha?
A Raposa não achava nada nem podia achar, pois seu focinho não passava pelo gargalo estreito do jarro. Tentou mais uma ou duas vezes e se despediu de mau humor, achando que por algum motivo aquilo não era nada engraçado.
MORAL: às vezes recebemos na mesma moeda por tudo aquilo que fazemos.


Versão atribuída a Esopo:

A Raposa e a Cegonha

A raposa e a cegonha mantinham boas relações e pareciam ser amigas sinceras. Certo dia, a raposa convidou a cegonha para jantar e, por brincadeira, botou na mesa apenas um prato raso contendo um pouco de sopa. Para ela, foi tudo muito fácil, mas a cegonha pode apenas molhar a ponta do bico e saiu dali com muita fome.

- Sinto muito, disse a raposa, parece que você não gostou da sopa.
- Não pense nisso, respondeu a cegonha. Espero que, em retribuição a esta visita, você venha em breve jantar comigo.

No dia seguinte, a raposa foi pagar a visita. Quando sentaram à mesa, o que havia para o jantar estava contido num jarro alto, de pescoço comprido e boca estreita, no qual a raposa não podia introduzir o focinho. Tudo o que ela conseguiu foi lamber a parte externa do jarro.

- Não pedirei desculpas pelo jantar, disse a cegonha, assim você sente no próprio estômago o que senti ontem.

(Quem com ferro fere, com ferro será ferido)

Faroleando o fabular:
Quem nunca se sentiu cegonha, ou não encarnou uma raposa? Mesmo sem querer, pois "As piores desgraças são feitas com as melhores intenções" (O. Wilde)

Fontes:
CRISTIANE MADANÊLO DE OLIVEIRA. "LA FONTAINE (1621-1695)" [online]
Disponível na internet via WWW URL: http://www.graudez.com.br/litinf/autores/lafontaine/lafontaine.htm
Capturado em 1/7/2010

http://aguerradetroia.wordpress.com/2009/05/28/eros-cupido-e-psique/
http://www.pensador.info/frase/NTgzNzY/

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Confabulando o fabular, Vol.4

Dobradinha no vol. 4 do confabulando o fabular.
Atendendo a pedidos, eis uma fábula de La Fontaine (falo sobre ele no próximo confabulando o fabular), inspirada em uma fábula atribuída a Esopo.

A Cobra e a Lima

Conta-se que uma cobra vivia próxima de uma joalheria.
Certa vez, morta de fome, entrou ali, procurando restos de comida, nada achando, põe-se a roer desesperadamente uma lima.
A lima então lhe diz: -que pretendes, infeliz?
Não vez que sou feita de aço?
E que assim, sem mesmo me prejudicar, você estará prejudicando a si mesma?
Percebe que logo não terá dentes para usar, e eu continuarei assim a mesma?...

Essa fábula foi nitidamente inspirada pela narrativa a seguir, atribuída a Esopo que mostra a disputa entre uma lima e uma burrin... ops! doninha:

A Lima e a Doninha*

Uma doninha entrara no ateliê de um ferreiro
e se pôs a lamber uma lima que estava no chão.
Sua língua começou a sangrar abundantemente.
Ela não se deu por vencida, achando que era o ferro que estava sendo comido.
Quando se deu conta, estava sem a língua.
Quem gosta de um contenda trabalha pela própria desgraça.


Faroleando o fabular:
Observem a doninha acima, essa foto foi tirada alguns momentos antes do encontro fatídico.
"-Essa é da bôua!!!"

Foi o que alguns ouviram a danadinha dizer...

Referências:
*Tradução de Antônio Carlos Viana
http://lorenamossa.blogspot.com/2009/08/fabula-de-la-fontaine-cobra-e-lima.html
http://sitededicas.uol.com.br/gifs/novos_gifs/serpente_e_a_lima.gif

1001 momentos das 1001 noites - vol. II

Do silêncio.

Belíssimo momento da 74ª noite das histórias das mil e uma noites.
Um pai moribundo recomenda ao filho:

Observe o silêncio, desvie os olhos dos defeitos alheios
e contenha a sua língua, pois já se dizia:
'quem observa o silêncio se salva'*
Também ouvi o poeta dizer:

'Mudez é adorno e silêncio é segurança;
se acaso falares, não sejas linguarudo, pois,

ainda que alguma vez te arrependas de tua mudez,
de teres falado sempre te arrependerás'.


Tradução de
Mamede Mustafa Jarouche
*provérbio popular

A imagem abaixo está hospedada no site Art, Poetry & Pen de Nora Corner


terça-feira, 22 de junho de 2010

Trabalhando a "Resenha Crítica" - Umberto D.

Foi durante o estágio que tive vontade de voltar aqui para o Farol. Depois de ler algumas das resenhas críticas que haviam sido tema de algumas de minhas aulas, no módulo de produção textual, fiquei animado para retornar publicando pelo menos uma daquelas que se destacaram. Finalmente estou cumprindo a promessa. "Pelas Caridade"\o/

IEP
Aluna: Auricléia N. da Siva

Nº: 05
Turma: 3º TC
Disciplina: Língua Portuguesa

Resenha crítica do filme Umberto D.

Umberto D é um filme que se passa na Itália dos anos 50. Conta a estória de um senhor aposentado que tem como melhor amigo seu cachorro Flike. O filme gira em torno da solidão, anseios e frustrações pelos quais passam os idosos ao se aposentarem. Umberto mora numa pensão com o seu cachorro, mas ultimamente andou atrasando o aluguel e a dona do lugar está tentando despachá-lo. Maria, a empregada da pensão, vive ajudando o seu Umberto. Ela está grávida, mas não sabe quem é o pai da criança. A moça considera-o como um pai, cultivando um grande carinho por ele.

Esse drama que retrata muito bem as limitações e o desamparo que atinge muitos idosos, nos traz uma visão muito realista da solidão e do abandono causados pela família e pela sociedade. Apesar de todas as dificuldades, Umberto não vai desistir tão facilmente e vai usar todos os recursos disponíveis para sobreviver. Mesmo com baixo custo de produção e usando alguns atores que não eram profissionais, este ótimo filme consegue segurar seus telespectadores, fazendo-os acompanhar atentamente todas as aventuras de Umberto e seu cachorro.

Parabéns Auricléia, obrigado pela ajuda e atenção durante as aulas e pela ótima recepção.
@br@ço!

sábado, 19 de junho de 2010

Adeus Saramago

"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é so um dia mais."


sexta-feira, 18 de junho de 2010

Confabulando o fabular, Vol.3

Conforme escrito no último Confabulando o Fabular, as fábulas de Fedro que havia encontrado eram idênticas as que são atribuídas a Esopo. De fato, Fedro além de fixar essas fábulas (passar da tradição oral para a forma escrita) foi responsável por lapidá-las estilisticamente.
Assim como Esopo, Caio Júlio Fedro foi um escravo alforriado, mas seus dados biográficos são bem mais acessíveis que os de Esopo, possuindo diversos registros. Consultando nosso oráculo moderno, o Google, encontrei bastante informação. Com bom senso, a rede se torna uma aliada imprescindível, e selecionando as fontes mais interessantes, que geralmente estão presentes em sites de universidades e professores, além de artigos publicados, a pesquisa ganha em qualidade.
No site do professor Márcio Luiz Moitinha Ribeiro (UERJ) há três dessas fábulas de Fedro. Escolhi obviamente a que narra a Raposa e as Uvas. Além da versão original em latim, há uma apreciação bastante completa das fábulas selecionadas pelo professor no site onde seu artigo foi publicado.

Versão em Latim:

De Vulpe Et Vua


Fame coacta uulpes alta in uinea
Uuam adpetebat summis saliens uiribus;quam tangere ut non potuit, discedens ait:
“nondum matura est; nolo acerbam sumere”.
Qui, facere quae non possunt, uerbis eleuant,
adscribere hoc debebunt exemplum sibi.

Tradução:

A Raposa e a Uva

Coagida (impelida) pela fome, a raposa cobiçava o cacho de uva
na alta parreira, pulando com todas as forças;
como não pôde tocá-la, disse, afastando-se:
“Ainda não está madura: não quero apanhá(-la) verde (azeda)”
(Os) que diminuem com palavras, (as coisas) que não podem fazer, deverão aplicar para si este exemplo.

Tradução da versão atribuída a Esopo*:

A Raposa e as Uvas

Um raposa estava com muita fome
e viu uma cacho de uvas numa latada[1].
Quis pegá-lo, mas não conseguiu. Ao se afastar, disse para si mesma:
-Estão verdes.
O Homem que culpa a circunstâncias fracassa e não vê que o incapaz é ele mesmo

*tradução de Antônio Carlos Viana
[1] Grade de ripas, varas ou canas, na qual se apoiam trepadeiras, parreiras etc.

Faroleando o fabular:

Apesar das sutis diferenças de estilo, a fábula permanece inalterada em sua essência, a qual aparece caracterizada numa das formas mais recorrentes nesse tipo de narrativa. É aquela essência que repousa na maioria das vezes sob os andrajos que cobrem "as fraquezas humanas e suas questões mais vis".